
Primeiro momento, 1987. Família de classe média austríaca vive uma vida comum. Seus pequenos problemas, sua pequena rotina, tudo parece se encaminhar bem. A esposa relata isso aos sogros numa carta.
Tanto poderia ser qualquer família, que nos primeiros 10, 15 minutos, os rostos não são mostrados.
Há um grande aquário com belos peixes.
A filha do casal, na escola, finge cegueira. É já um sinal de que há algo que não caminha tão bem, na rotina desta gente.
Segundo momento, 1988. Mesma estrutura, com pequenas variações. O amor que se faz, a pequena satisfação mostrada friamente, sem graça.
O homem da casa tem promoção na empresa. Ainda assim, vão ao mesmo lava-rápido visto na primeira cena e que será visto outras vezes. Imersos naquele pequeno universo, dentro daquele carro, há uma angústia inexplicável da esposa, que segura a mão da filha no banco de trás e chora. Nada que o marido possa consertar.
Novamente, a carta aos sogros traz boas novas.
1989. Uma carta, desta vez é o pai de família que se dirige a seus pais. Relata que a criança não tem medo da morte. Relata, também, um plano que não parece muito claro mas, sim, está relacionado a uma atitude radical.
Ele pede demissão.
O casal retira todo o dinheiro que têm no banco. Lá mesmo, anunciam: partirão à Austrália, o sétimo continente.
A viagem é outra, seu sétimo continente é outro. Devo poupar a quem não conhece o filme o horror do que há por ver.
No fim, apenas o ruído de uma televisão que não está sintonizada.
É, também, o primeiro filme de uma "trilogia da era glacial", que engloba "O Vídeo de Benny" e "71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso".
Haneke se baseou em fatos brutais. Tão brutais ou mais do que no seu quarto filme, o registro de 1997, Funny Games.
Quem entra no jogo (leia-se, propõe-se a assistir a estes filmes) precisa saber que será testemunha de algo injustificável.
Não se tratam de filmes que pessoas mais sensíveis deveriam assistir.